Artistas - Carlos Mélo

Formação

1997 a 1998
Curso de História da Arte Moderna e Contemporânea e Pesquisa Plástica no Instituto de Arte Contemporânea do Recife
1992 a 1996
Curso de Extensão Universitária – Desenho e Pintura. Escola de Belas Artes da UFPE – Universidade Federal de Pernambuco
1992 a 1994
Graduação incompleta em Pedagogia - Faculdade de Filosofia de Caruaru
1994
Estudos de desenho e pintura no Atelier Novo, Museu de Arte Contemporânea – MAC de Olinda

Principais exposições

Individuais

2008
ONDAS: corpo sensível/lugar profundo: ONDAS
Galeria Mariana Moura
Recife - PE
2006/7
Véspera
Salão de Artes Plásticas de Pernambuco – MAC
Recife - PE
2005
Documento
Galeria Mariana Moura
Recife - PE
2004
Terreno
Paço das Artes
São Paulo - SP
2003
Carnos
Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – MAMAM
Recife - PE
2002
Zone
Instituto de Arte Contemporânea da UFPE
Recife - PE
2001
O Lugar do Corpo
Centro Cultural São Francisco
João Pessoa - PB
2000
Nômeno
Galeria Vicente do Rego Monteiro - Fundação Joaquim Nabuco
Recife - PE
1998
Ausência em Pequeno Formato
Galeria Pequeno Formato, UFPE
Recife - PE
1997
Carlos Melo – Desenhos e Colagens
Instituto de Arte Contemporânea da UFPE
Recife - PE

Coletivas

2008
Futuro do Presente
Itaú Cultural
São Paulo - SP
2007
Novas Aquisições 2006-2007 - Coleção Gilberto Chateaubriand
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM
Rio de Janeiro - RJ
2006/07
Coleção do MAMAM
Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães
Recife - PE
2006
Geração da Virada 10+1: Anos Recentes da Arte Brasileira
Instituto Tomie Ohtake
São Paulo - SP
2006
XII Salão UNAMA de Pequenos Formatos
Galeria de Arte Graça Landeira
Belém - PA
2006
É HOJE na Arte Brasileira Contemporânea
Santander Cultural
Porto Alegre - RS
2006
XII Salão de Arte da Bahia
Museu de Arte Moderna da Bahia - MAM
Salvador - BA
2005
Territórios Transitórios
Paris
Paris
2005
Verbo
Galeria Vermelho
São Paulo - SP
2005
O Corpo na Arte Contemporânea Brasileira
Itaú Cultural
São Paulo
2004
Tudo Aquilo que Escapa
MEPE
Recife - PE
2004
II Bienal do Desenho
João Pessoa
João Pessoa - PB
2003
Latinidades - Repentes Visuais
SESC
São Paulo - SP
2003
60 Salão de Arte do Paraná
MAC
Curitiba - PR
2003
Experimental
Centro Cultural Dragão do Mar
Fortaleza - CE
2003
III Salão Nacional de Arte de Goiás

Goiânia - Go
2002
IX Salão de Arte da Bahia
Museu de Arte Moderna da Bahia - MAM
Salvador - BA
2002
II Salão Nacional de Arte de Goiás

Goiânia - GO
2002
Arte: Sistema e Redes
Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará
Fortaleza - CE
2002
Nômeno: Souvenir do Algo - Projeto Prima Obra
FUNARTE
Brasília - DF
2002
Rumos da Nova Arte Contemporânea Brasileira
Fundação Clóvis Salgado - Palácio das Artes
Belo Horizonte - MG
2002
Arte: Sistema e Redes
Itaú Cultural
São Paulo - SP
2002
Artistas de Pernambuco Brasil
Fundação da Juventude
Porto, Portugal
2002
VII Salão de Arte do Pará
Belém
Belém - PA
2001
Projeto Rumos Itaú Cultural Artes Visuais
São Paulo
São Paulo - SP
2000
Permanências e Rupturas
Torre Malakoff
Recife - PE
1999
Projeto Rumos Visuais
Itaú Cultural
São Paulo - SP
1999
Arte Contemporânea [2000-1] Pernambuco
MAMAM
Recife - PE
1999
Arte Contemporânea [2000-1] Pernambuco
MAM Bahia
Salvador
1999
Salão de Novos Talentos da Arte Pernambucana
MAC
Olinda - PE
1998
V Salão de Arte MAM
MAM Bahia
Salvador - BA
1998
Arte Contemporânea
Galeria de Pequeno Formato - UFPE
Recife - PE

Prêmios

2008
Selecionado entre os 10 projetos de artistas brasileiros escolhidos para receber destaque no site da Fundaçao Ibere Camargo – Porto Alegre - RS.
2006
II Prêmio CNI SESI Marcantonio Vilaça para as Artes Plásticas.
2006
Prêmio Aquisição no XII Salão UNAMA de Pequenos Formatos, Belém.
2005
Prêmio Bolsa de Pesquisa no XLVII Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, Olinda.
2003
Prêmio de Aquisição no III Salão de Artes de Goiás, Goiânia.
2002
Prêmio Aquisição do IX Salão de Arte da Bahia, Salvador.
1999
Prêmio Aquisição no Salão de Novos Talentos da Arte Pernambucana, Olinda.

Textos críticos

Suely Rolnik, outubro 2008

Auto-retrato em fuga

Os desenhos são uma espécie de assunto. Às vezes, figuras. Às vezes, manchas, marcas fortes, restos apagados. E neste ‘gesto simples’ eles se revelam como ‘abismos’: que salto político é esse que me garante a apreensão de uma imagem? Retida na pele, deslizando e planando dentro de mim? Bruta, a ponto de querer sair a qualquer custo?
Carlo Mélo

Se oferecer ao artista um tempo para entregar-se ao pensamento de sua obra, em diálogo com um outro de sua preferência, constitui de fato um prêmio, Carlos Mélo estendeu este privilégio ao interlocutor escolhido. O movimento de nosso encontro não se deu em mão única, mas em mão dupla – ou melhor, num entre dois. Tateamos juntos seu percurso artístico de modo a ir aos poucos encontrando uma zona sensível onde se moviam ambas investigações, um certo campo problemático comum. Aí instalamos nossa conversa que, por reverberação e contágio, proporcionou um adensamento do nossos respectivos trabalhos. O que segue não é a conclusão deste processo, mas apenas uma de suas possíveis atualizações.

‘Abismo’ foi o nome que nos ocorreu para o estado que buscávamos circunscrever, cada qual no meio que lhe é próprio: imagens e gestos, de um lado, palavras, de outro. Um abismo que nada tinha de dramático, já que drama é coisa do ego e tem a ver com a obsessão por seu reflexo no espelho. O movimento, aqui, foi exatamente o oposto: o abismo dizia respeito àquilo que se instaura quando irrompe um plus de sensibilidade que abre acesso a algo do real até então inapreensível. Um algo que se apresenta como pura sensação, excede o vivido, tornando-o insuficiente, estreitos os seus limites. E o espelho embaça; já não reflete imagem alguma. Abismo de si, abismo de sentido. Uma espécie de estado de suspensão à espera que este algo se encarne enfim em obra. Quando isso acontece é como « um nó que se desata » – o vivo se expande, encontra um novo contorno, alarga-se a percepção, toma corpo um novo equilíbrio. Mas se a arte é de algum modo esta terapêutica do vivo, diferente e complementarmente à clínica, seu alvo não é pesquisar estes estados de desconforto, e muito menos ‘tratá-los’, mas inventar uma saída, dar corpo a este algo que transborda e insiste, trazê-lo à flor da pele. Esta a ‘obra’ propriamente dita. Com ela, um terreno se oferece onde poderão (ou não) germinar outros mundos neste mundo.

O esforço conjunto para descrevermos esta zona sensível e, mais do que isso, nomeá-la e nela instalarmos nossa colaboração ativou no artista uma certa potência pensante da mão. O desenho foi seu ponto de partida, o mais básico, o mais simples: lápis preto no branco do papel. Uma espécie de auto-retrato um tanto estranho começou então a se esboçar e logo proliferou, formando uma série que não por acaso Carlos M. batizou de Abismo.

O auto-retrato não é novidade na obra deste artista; insiste a tal ponto que parece indicar que talvez nele se encontre o nervo central de sua poética pensante. São muitos e diversos os auto-retratos: resultam das reiteradas imersões neste estado sensível as quais se plasmam de múltiplas maneiras. Usando a seu favor a liberdade da arte contemporânea em extrapolar os gêneros e espaços em que se move tradicionalmente o artista, Mélo explora o auto-retrato em diferentes suportes, que manipula com igual desenvoltura e talento: desenho, foto, vídeo, performance e instalação. Porém, não é isso o que mais chama a atenção ou sinaliza sua singularidade, e sim uma qualidade presente em cada um eles: são todos auto-retratos paradoxalmente em fuga de si mesmos. Nada a ver com traçar a forma do rosto – face externa, extensiva, representável, identificável de uma auto-imagem igual a si mesma; ao contrário, nestes retratos tal forma se esquiva, esconde, desaparece de cena ou até se dissolve. E o gesto não se esgota aqui: dissolver o rosto é apenas o meio para retratar um corpo entregue ao mundo, sua face intensiva. E tal face é, por princípio, não identificável, pois é nela que germinam os devires deste corpo, impulsionados pelas marcas das forças da alteridade de que é portador, seus afetos. « Na cartografia do afeto a geografia é outra », pontua o artista; e ele prossegue: « descobri que apagar é desenhar também, e como uma ausência muito forte é uma presença, inevitavelmente esse lugar instável se revela », Assim, descreve a experiência desta revelação tal como ele próprio a viveu: « o auto-retrato então se diluiu porque não era mais eu; eram eus, eus, eus… ».

Em outras palavras, ‘auto’ aqui não designa a interioridade psicológica que um rosto possa expressar e muito menos seus sentimentos; tampouco designa a exterioridade de sua existência mundana enquanto conjunto de signos a serem associados a imagens pré-estabelecidas que permitam identificá-lo na cartografia de representações em uso. No lugar disso, auto para Carlos M. remete ao mútuo atravessamento sem fronteiras entre o corpo humano e o corpo do mundo que o rodeia a gerar as formas inconstantes que em ambos vão se delineando.

Não por acaso o artista diz que « sempre fugiu do auto-retrato como o diabo foge da cruz… esta confessionalidade ». Nesta fuga, o que ele estaria buscando são efêmeros auto-retratos da dissolução do eu-planar cercado por um mundo-fundo-neutro, para reencontrar-se em processo no atrito sensível com o entorno. E os entornos são os mais variáveis: o mais esperado, o museu, em seu espaço tanto interno, quanto externo (como em Carnos) , mas também a paisagem rural (como em Editorial do gesto simples) ou os rastros um tanto abandonados da paisagem urbano-industrial (como em Inter-ação), ou ainda o auditório de um estabelecimento público (como em Véspera) , ou o dormitório do próprio artista (como em Nova arte moderna) e tantos outros. São várias igualmente as máscaras por meio das quais se traçam estes auto-desretratos: evidentemente, a imagem de si mesmo (como em Cosme & Cosme, Nova Arte Moderna, Abismos, Carnos, Inter-ação, etc), mas também de outro(a)s, duplos que ele empresta, « para fazerem por ele », como diz o artista, quando não dispõe de recursos físicos para fazê-lo ele mesmo. Daí a freqüência, em suas ‘performances’ ao vivo ou em vídeo, de bailarinos e/ou atores, capazes que são de dar corpo ao gesto pretendido. Eles ora caem (Ouça), ora choram e riem sucessivamente (Véspera), ora apontam para uma certa direção (Editorial do gesto simples), sem que se saiba porque nem para onde, já que são os próprios verbos ‘cair’, chorar’/‘rir’ e ‘apontar para’ o que aqui é posto em cena. Além deste, são muitos outros os procedimentos, estratégias e operações utilizados para realizar seu intento; vários deles retornam igualmente em novos trabalhos, como a presença de seu próprio corpo-obra, a romper à força a suposta neutralidade das coisas que insiste em nossa cartografia imaginária (como em Carnos).

Ao referir-se a estes insólitos auto-retratos tal como aparecem em Carnos, Moacir dos Anjos chama a atenção para o « título híbrido que o nomina », o qual « funde carne – substantivo comum – com o nome próprio do artista »; e o curador da exposição desenvolve seu argumento propondo uma certa definição de ambos, bem como de sua fusão. Em diálogo com esta leitura, sugerimos sobre o nome próprio, carlos, que este marcaria a esfera representacional identitária que o fixa numa forma e, junto com ela, na forma de uma subjetividade; e sobre a carne que nele se inseriu, a mesma marcaria a esfera das potências deste corpo enquanto vivo. Se isso faz sentido, o gesto poético que o título designa estaria afirmando a diferença irredutível entre extensivo e intensivo; representação e afeto; particular/geral e singular e a inelutável co-existência inclusiva de cada um destes pares. E mais: a pulsação desta disparidade paradoxal é o motor da criação de um si em processo, precisamente o si que o artista busca captar com seus auto-retratos em fuga. Passamos assim da particularidade do nome, para a singularidade dos afetos de que é capaz um corpo em sua imersão no meio. A obra de Mélo busca afirmar o singular, o intensivo, o afetivo. O próprio artista assim formula o processo que a permeia: « são trabalhos cuja prática, silenciosa, é como tatear para dentro – e isto implica em um estado permanente de relação, não apenas com as ações sutis de um corpo sob os estímulos do mundo, mas também com um ‘planar’ interno. Ou seja: corpo oco. Cujo interior não é só meu, visto que pertence ao mundo. »

Carlos Mélo não parece preocupar-se em apagar a forma externa do corpo para escapar à prisão da representação, onde a criação artística esteve por tanto tempo confinada. Este passo já foi dado antes dele e faz parte do legado que o constitui como artista; repeti-lo seria chover no molhado; pior que isso, o gesto se reduziria à limpeza do terreno sem que nele germinasse coisa alguma. Distante da mera oposição ou combate à representação, o alvo aqui é ativar e dar forma a uma outra dimensão do real do corpo: carnos que se revela sob carlos, como o designou o próprio artista.

Abismos se inscrevem na migração do auto-retrato para outro suporte, agora o desenho – como já havia acontecido na série Cosme & Cosme, mas com outros procedimentos. Aqui, os traços do rosto são esmaecidos, por esfumaçamento ou apagamento; ou então, velados, encobertos por espessa mancha de grafite, criando zonas pictóricas que parecem ganhar volume e se desprenderem do plano: uma quase-pintura que de tão densa chega a ser quase-escultura. Por exemplo, os cabelos. Estes abandonam sua condição de representação para torna-se chumaço pictórico preto-luz a dissolver as qualidades identificatórias do lugar onde se alojam, de modo que sua outra face se revele. E os cabelos migram: do rosto para o dorso da cabeça; eles podem eventualmente também alojar-se em diferentes partes do esqueleto, ou mesmo sobre o corpo todo como uma negra e impenetrável batina a isolar seus afetos; podem ainda espalhar-se pelo ambiente, formando espessa cortina a impedir a passagem da luz.

Nestes desenhos, os reinos vegetal e animal se desterritorializam. No corpo humano, até o esqueleto, seu elemento mais estrutural e mais duro, tem a imagem deslocada de sua organização funcional, extensiva, para que nele se libere o acesso à sua processualidade intensiva. A composição das diferentes partes do esqueleto, bem como do esqueleto com os demais componentes do corpo – cabelos, por exemplo – está totalmente fora da ordem. Igualmente fora da ordem, está sua relação com o exterior do corpo: flores atravessam ossos numa inesperada mistura entre reinos. Apenas esboçadas, as flores parecem emergir de uma resistência do gesto, tensionado entre dois vetores. De um lado, o inerte conforto do vício de fazer-se sob a forma de desenho para fins científicos ou pedagógicos (ilustração das coisas pelo lado de fora, o mais óbvio); de outro, o necessário desconforto da recusa a submeter-se à ordem oficial do mundo, para atingir as coisas em sua densidade sensível, o menos óbvio. Por mais supostamente figurativos, tudo foge nestes retratos do invisível: a flora, a anatomia, suas espécies, suas categorias… Tampouco se pode depreender qualquer narrativa de sua insólita composição: mais um procedimento da operação poética que nos desloca da representação e nos lança no intensivo.

Reforçando a incontornável disjunção, aparecem os microfones. Também eles são elementos recorrentes na obra do artista. Colocados onde menos se espera, eles funcionam como uma espécie de apelo à nossa escuta da vibração do mundo que teria se tornado invisível e inaudível. Em diferentes tamanhos e posições, aqui eles ora amplificam tal vibração no corpo das flores, ora no corpo do homem, como que a insinuar que por impacto da dissolução de um território e seu universo de signos – o abismo –, as vísceras tivessem que cegar-se momentaneamente em sua potência retiniana e coubesse à prática artística reativar o desejo visceral de encontrar o mundo, convocando para isso sua outra potência, a vulnerabilidade às forças.

A obra de Carlos Mélo demarca um território, ou melhor, o instaura. Como fazem os animais, a instauração aqui é feita de dispositivos sempre ritualizados, que são, mais do que tudo, ritmos. Porém, diferentemente dos animais não humanos, nestes trabalhos, o ritual e seu ritmo estão constantemente mudando; eles se inventam a cada vez em função do meio onde se fazem e do campo problemático que buscam enfrentar. Para isso o artista instala-se na imanência do mundo, ao pé do real vivo, só apreensível por afeto. Um exímio retratista do irretratável.

Suely Rolnik, outubro 2008

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